Donzela Ou Assassina
No drama O
Marinheiro, há três donzelas que estão sentadas com uma mulher morta dentro
de uma caixão. Elas estão dentro de um castelo durante o drama inteiro e não se
movem da cadeira. Estas donzelas não estão aí apenas para conversar e lamentar
sobre a morte da mulher. Elas estão aí porque A Segunda mulher cria A Primeira
e A Terceira na mente para tirar atenção da culpa que tem. Ela é culpada da
morte da mulher do caixão e na verdade está numa cadeia por ter assassinada ela.
A mulher na caixão não está na sala com ela literalmente, mas está lá na mente
dela sempre a perturbando. Podemos saber através da conversa que ela tem com si
mesma que está perturbada pelo passado dela e não pode sair da sala porque está
presa.
Logo no começo da peça, A Primeira quer conversar sobre o
tipo de pessoa que ela tem sido. A Segunda logo rejeita a ideia e diz, “Não,
não falemos disso. De resto, fomos nós alguma coisa?” (p. 217). Ela não quer
lembrar daquilo que a levou para a cadeia e pensa que nunca era alguém de valor
desde que cometeu o homicídio. A Terceira é a parte da consciência da Segunda
que quer esquecer do homicídio e quer focalizar nas coisas boas do passado. “O
que eu era outrora, já não se lembra de quem sou... pobre da feliz eu fui!” (p.
221). A Primeira é a parte da consciência da Segunda que quer admitir e
enfrentar os erros que tem cometido. Sempre tentando a lembrar do passado e
analisar o que aconteceu. “Não dizíamos que íamos contar o nosso passado?”
(p.218). Enquanto A Segunda sempre quer ignorar esta parte da consciência dela,
como se nunca tivesse acontecido. Ela fala logo depois que está disposto falar
de um passado que nunca tinha. Quer dizer que ela quer inventar um passado para
cobrir a memória de cometer o homicídio.
O marinheiro do sonho da Segunda, é a maneira em que ela
começa a inventar uma vida nova. O marinheiro representa ela mesmo. Ela vai
explicando que o marinheiro ficou sozinho numa ilha depois de um naufrágio, e
sabendo que nunca voltará para a casa dele, ele começa a inventar um passado e
uma vida nova. É exatamente isto que A Segunda está tentando fazer. Ela sabe
que por ter matada a mulher, ela está presa por vida e nunca voltará para a
terra dela. Sabemos que está presa porque ela fala como ela nunca vai poder ver
o mar. “Aquele que nós vemos dá-nos sempre saudades daquele que não veremos
nunca.” (p. 218). Ela só fala de um jeito que ela nunca vai sair da sala porque
sabe que está presa numa cadeia.
Não sabemos por quanto tempo que A Segunda tem sido
presa, mas tempo suficiente para começar a inventar outras personagens. Ela
diz, “Tenho que cansar a ideia de que vos posso ver para poder chegar a
ver-vos...” (p. 219). Ela mesma diz que ela cansa a ver as outras duas donzelas
porque na verdade não existem fisicamente. Apenas fazem parte da própria
consciência dela. Ela nunca tem contato com o caixão na sala porque é apenas a
coisa que nunca sai da mente dela. Ele não quer ficar sozinha com a memória de
matar a mulher então ela vai inventando personagens para atrair a atenção
daquilo. No final da peça, ela já começa criar uma outra personagem. “Quem é
que está falando com a minha voz... Ah. Escutai.” (p. 229). Ela começa a ouvir
uma outra voz, que significa ela já está no processo de criar uma outra pessoa
da própria consciência dela. Fala que seria a quinta pessoa porque para ela já
tem ela mesmo, A primeira, A Terceira, e a mulher no caixão. Ela vai criando
mais e mais pessoas ao longo do tempo para evitar a parte culpada da mente, que
é representada pela imagem da mulher no caixão que matou. A Segunda dá uma
olhada para o caixão algumas vezes e quando ela faz isto, A Terceira fala para
não prestar atenção para ela, que são apenas elas três sentadas conversando e
mais ninguém está escutando.
A solidão da Segunda significa que ela era mandada para
prisão em solitária. Por estar sozinho com a culpa de consciência, ela não
aguentou mais e não quis sofrer durante o tempo que tem que ficar na cadeia.
Ela nunca fala na peça exatamente o que foi que fez. Ela deixa clara que ela
tem feito algo que está perturbando-se. Ela diz, “Ó minhas irmãs, minhas
irmãs... Há qualquer coisa, que não sei o que é, que vos não disse... qualquer coisa
que explicaria isto tudo... A minha alma esfria-me.” (p. 225). Ela quer dizer
que ela sabe porque está na cadeia. Ela sabe a coisa que tem feito que explica
a situação em que ela se encontra. Ela só não quer aceitar, e viver com aquilo.
Por isto ela nunca quer falar do passado a menos que seja um passado que nunca
aconteceu. Um passado alternativo para que ela não tenha que lembrar do
homicídio.
A Segunda sabe que um dia ela vai ter que acordar e
enfrentar a realidade. Tanto que ela se esforça para esquecer do crime dela, a
consciência não deixa. A imagem da mulher no caixão sempre estará no lado dela
se perturbando. No sonho que ela conta do marinheiro, um dia o marinheiro chega
a cansar de sonhar e inventar a vida alternativa. O marinheiro, tanto que não
quiser, tem que acordar e enfrentar a realidade que ele está na ilha sozinha e
nunca voltará para sua terra. A Segunda jamais quer enfrentar a realidade que
ela tem matada alguém e nunca voltará para a terra dela. Não sabemos o fim da
vida dela. Se ele acaba aceitando a realidade ou se ela continua a inventar
escapes da realidade para ocupar a vida na cadeia. Ela gostaria de viver como
uma pessoa boa na fantasia dela, do que uma monstra na realidade.
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